• Ferraro Junior, N.

Amores Líquidos - Narcisismo



Novos Nomes, Conceitos Antigos.


A psicanálise não possuí como objetivo principal a explicação de fenômenos sociais, embora também o faça - e com certa frequência; exemplo disto, temos a "análise" de Freud sobre obras de arte, personagens históricos (Leonardo da Vinci, Goehte), obras literárias (a Graddiva de Jensen, um conto de Hoffmann, o Moisés de Michelangelo), Lendas e/ou Mitos (Édipo, Hamlet), instituições, formações sociais que não são sujeitos: cristianismo, judaísmo, Igreja, exército, civilização moderna; cidades: Roma, Atenas, Éfeso e até Moisés. (MILLER, 1987).


Qual seria o objetivo destas análises? Bom, dentro da narrativa mítica, esconde-se um aspecto, um núcleo, que visa encerar uma verdade. A fábula, pelo contrário, refere-se a acontecimentos realmente imaginados e que não modifica a condição humana como tal. O mito, relata uma "história verdadeira", na medida em que toca profundamente o homem - ser mortal, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para sobreviver, submetido a acontecimentos e imprevistos que independem de sua vontade. É a história da criação do mundo, do homem, de múltiplos eventos cuja memória cronológica se perdeu, mas que se preservam em uma memória mítica (CIVITA et al, 1973).


A prática da psicanálise visa implicar o Sujeito - que fale, ouve e principalmente, ouve aquilo que fala - sobre aquilo que ele se queixa nele e no Outro. Pois aí reside a origem de seus conflitos; através da rede de Significantes.


 Amores Líquidos ou Narcisismo?


A introdução anterior refere-se as diversas formas de se olhar um mesmo Objeto. Neste caso, as relações superficiais e consequentemente "líquidas" dos tempos atuais, coisa que nem em "sonho" Freud chegou a pensar que existira. Zygmunt Bauman explica, do ponto de vista social essas relações:


"A superficialidade das relações humanas gerou um conjunto de laços e indivíduos “descartáveis”. Se algo não está bom: descarta! Mas o que nunca vem à nossa mente é que o caçador também pode se tonar caça. Lidar com diversas pessoas descartáveis o torna, da mesma maneira, descartável.

É o que Bauman chama de “amor líquido”. “É um amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. Na sua forma ‘líquida’, o amor tenta trocar a qualidade por quantidade – mas isso nunca pode ser feito. É o amor um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele.”.


Porém, a superficialidade não se restringe somente às relações amorosas humanas. Sendo estas apenas mais um dos tantos Sintomas Sociais de nossa sociedade atual. Jung já dizia: "mais importante que observar o sintoma ou a origem do mesmo, é observar para onde ele aponta, para onde ele leva o indivíduo" (lembro dessa frase de uma aula). Tal olhar social, ao mesmo tempo que explica um fenômeno, acaba por reforçar os mecanismos de defesa dos indivíduos que apresentam tal Sintoma - de relações líquidas/superficiais. A implicação da psicanálise, provem de outro ponto de vista, como também da vista do ponto, resumindo à máxima: "Qual a sua responsabilidade naquilo em que se queixa?"


Ao mudar o foco de um problema social, o qual não permite que o sujeito faça algo de concreto (a não ser se lastimar) para um problema pessoal (onde se encontra a sua responsabilidade naquilo em que se queixa?); pode-se então resolvê-lo, uma vez que é a partir do nível Pessoal que se formam as relações do Social e o processo de mudança social, ocorre primeiramente, em níveis pessoais.


Narcisio!

A versão mais corrente sobre a origem de Narciso é relatada por Ovídio (24 a.C. - 18 d.C.), nas Metamorfoses, e correspondem à transformação do jovem Narciso (...), dotado de extraordinária beleza, apaixonou-se por sua própria imagem. (...) Incapaz de afastar-se, perdido na contemplação de si mesmo, o jovem deixa de alimentar-se, de dormir, de saciar a sede. E vai definhando, à beira da fonte, até consumir-se na paixão impossível. Mesmo depois de morto, ainda adoraria a própria imagem. (CIVITA et al, 1973). Mas, a mitologia não conta apenas contos, mas também os explica do ponto de vista psicológico:


"Em sua ingenuidade, deseja a si mesmo. A si mesmo dedica seus próprios louvores. Ele mesmo inspira os ardores que sente. Ele é o elemento fogo que ele próprio o ascende. E quantas vezes dirigiu beijos vãos à onda enganadora! Quantas vezes, para segurar seu pescoço ali refletido, inutilmente mergulhou os braços no meio das águas".

"Não sabe o que está vendo, mas o que vê excita-o, o mesmo erro que lhe engana os olhos, acende-lhe a cobiça. Crédula criança, de que servem estes vãos esforços para possuir uma aparência fugitiva? O objeto de teu desejo não existe. O objeto de teu amor, vira-te e o farás desaparecer. Esta sombra que vês é um reflexo de tua imagem. Não é nada em si mesma; foi contigo que ela apareceu, e persiste, e tua partida a dissipará, se tivesses a coragem de partir" (ibid).

Na teoria kleiniana o interesse puramente narcisista é uma atitude agressiva em relação ao objeto; existe uma intenção de agredir, por inveja ou por ciúme, que é expressa pelo narcisismo. Quando o sujeito é narcisista em seus interesses, sempre haverá alguém que sofrerá com isso. A resolução do narcisismo é realizada pelo interesse e amor em proteger os objetos externos e internos.


Pode-se até dizer que o Narcisismo da psicanálise tenha pouca semelhança com o Narciso mitológico, já que o Narciso mitológico, representa uma "patologia psicológica" que leva o próprio a perseguir seu desejo mesmo depois de sua morte. Ou seria uma complementariedade?



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Psicólogo Noazir Ferraro Junior - CRP:08/13.953

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